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Yun Joker: entre a música, a vida e as escolhas

De Benguela aos desafios da exposição pública, o rapper fala de trabalho, vulnerabilidade, relações e da decisão de não voltar atrás.

Redacção RAP ARTE

Retrato de Yun Joker para o editorial RAP ARTE.

Há artistas que se explicam sobretudo através das canções. Yun Joker prefere deixar que a música fale, sem abdicar do direito de guardar uma parte da sua vida para si. Nesta conversa com o RAP ARTE, o rapper revela tanto a ambição como os limites que aprendeu a estabelecer.

O homem por detrás do nome

Antes de ser Yun Joker, é Ermelindo dos Reis Borges. Aos 23 anos, descreve-se como alguém que vive e respira música, mas que também encontra espaço para a tecnologia, os negócios e os animes. Yun Joker é o seu alter ego — uma identidade artística que não pretende revelar todas as dimensões da pessoa.

A ligação ao rap começou nas ruas de Benguela, onde fazia freestyle. Situa o início das suas gravações entre 2015 e 2016; em 2018, passou a encarar a música também como um negócio. Pelo caminho, recorda portas fechadas, rejeição por parte de figuras da elite e problemas pessoais como experiências que o moldaram.

A distinção entre a vida pública e a privada é deliberada. O artista reconhece que todos mostramos facetas diferentes consoante o meio em que estamos e reserva maior acesso a quem confia — sobretudo familiares e amigos.

O preço de ser reconhecido

A atenção do público trouxe uma nova rotina. Yun Joker conta que ainda se está a habituar aos pedidos de fotografias e às conversas espontâneas sobre a sua música quando sai à rua. Desde que os holofotes se voltaram para ele e para o seu grupo, diz que o quotidiano deixou de ser o mesmo.

Nem todos os obstáculos estão onde o público imagina. Quando lhe perguntámos qual era uma das maiores dificuldades práticas da carreira, respondeu com humor: conceber videoclipes, pensar nos roteiros e articular a estratégia de marketing.

Para conciliar as exigências da música com a vida pessoal, prefere uma regra simples: viver um dia de cada vez. E, para preservar a tranquilidade, procura não misturar as duas esferas.

Segundo retrato de Yun Joker para o editorial RAP ARTE.

Trabalho, limites e a capacidade de recomeçar

Há princípios que Yun Joker prefere não expor publicamente. Diz apenas que os seus ideais são inegociáveis. Também evita detalhar a fase mais difícil que atravessou, mas partilha a lição que retirou dela: tudo passa, tanto os momentos bons como os maus.

Quando os planos falham, a resposta não é necessariamente insistir. Às vezes, é parar e dormir: o descanso, explica, ajuda-o a organizar as ideias. Ao mesmo tempo, mantém a convicção de que o trabalho acaba por devolver resultados — uma ideia que atravessa as suas canções sobre obsessão e desenvolvimento pessoal.

Escrever o que se vive — e o que se escuta

As experiências próprias são matéria-prima, mas não são a única fonte. Yun Joker diz que também escreve a partir do que vivem as pessoas à sua volta. Considera-se um bom ouvinte e alguém a quem os outros recorrem para desabafar; depois, essas conversas podem transformar-se em música.

O projecto «Sentir É Inevitável», de 2025, nasceu de um período marcado por reflexões sobre crescimento pessoal, reconhecimento e cansaço psicológico. Já «Para Todas As Ex Que Já Amei», de 2026, dirige o olhar para relações amorosas que não resultaram.

Não significa que seja fácil traduzir todas as emoções. O artista admite que ainda está a aprender a expressar algumas e a lidar com outras que tende a reprimir. Acredita que essa evolução será perceptível nos próximos trabalhos.

No processo de escrita, começa por identificar o que sente; só depois pensa em como explicar a ideia, a quem se dirige e como fazer a mensagem chegar ao público. A autenticidade, para ele, não exclui a intenção de comunicar.

«Pra Nunca Mais»: fechar a porta sem apagar a história

É neste percurso que surge «Pra Nunca Mais», lançado a 28 de Outubro de 2026 com Jessica Nankary. Yun Joker descreve a faixa como uma espécie de síntese de «Para Todas As Ex Que Já Amei»: a memória de relações que tiveram amor, mas às quais decidiu não regressar. Para explicar essa decisão, recorre à imagem de cacos de vidro espalhados pelo caminho de volta.

A colaboração com Jessica nasceu de uma proximidade já existente. Ele destaca o talento da cantora e diz que há muito fazia sentido criarem algo juntos.

A produção trouxe desafios concretos de distância: Melo Cooksomething estava em Portugal, Yun Joker em Luanda e Jessica em Benguela. Manter uma comunicação frequente entre os três não foi simples, mas conseguiram concluir a música.

Quanto à interpretação da faixa, Yun Joker prefere não impor uma leitura definitiva. Quer que cada pessoa a escute e encontre sentidos diferentes ao longo do tempo.

O que fica — e o que vem a seguir

Quando fala das suas conquistas, Yun Joker não começa por números ou troféus. Fala dos ouvintes fiéis. Gosta de ler os comentários e as mensagens, identifica-se com muitos deles e, por vezes, responde pessoalmente.

A ambição, contudo, não é pequena: quer vir a integrar a lista dos melhores rappers do mundo. É uma declaração de confiança sobre o futuro, não uma conquista que reivindique já ter alcançado.

A quem o acompanha e atravessa um momento difícil, deixa um conselho de autoestima e perseverança: «Seja seu maior fã». É uma forma de resumir a mesma ideia que atravessa esta conversa — crescer, trabalhar e aprender a escolher os caminhos aos quais vale a pena voltar.