Especial RAP ARTE · Parte I — Antes da primeira escuta

RONIN: NÃO VENDO DROGAS, NÃO VENDO ILUSÕES

Entre a escrita, a observação social e a recusa das certezas fáceis, RONIN prepara um EP de sete faixas que procura provocar perguntas, não oferecer respostas prontas.

Entrevista e texto editorial: RAP ARTE · Outubro de 2026
Capa oficial do EP Não Vendo Drogas de RONIN
Capa oficial · Não Vendo Drogas

Há títulos que procuram explicar uma obra. Outros preferem perturbar a primeira impressão. Não Vendo Drogas pertence à segunda categoria. A afirmação é literal para RONIN, mas o seu alcance não termina aí: a palavra «drogas» abre espaço a uma reflexão sobre as ilusões, as convicções e os mecanismos de fuga que atravessam o quotidiano. O rapper não se apresenta como alguém que descobriu todas as respostas. Interessa-lhe, antes, perceber por que razão tantas vezes aceitamos respostas que nos dispensam de pensar.

É esse o ponto de partida do novo EP, anunciado para 30 de Outubro de 2026. Segundo as informações partilhadas pelo artista, o projecto terá sete faixas e produção integral de Silindro Darkroom. RONIN apresenta-o como um convite à inquietação e ao questionamento. Antes de conhecer as canções, importa conhecer a intenção: RONIN quer colocar sob suspeita aquilo que consumimos, aquilo em que acreditamos e as histórias que construímos para justificar as nossas escolhas.

Retrato de RONIN, fotografia de @boxfamily.ao
Fotografia: @boxfamily.ao

A recusa das ilusões

No centro de Não Vendo Drogas está uma pergunta incómoda: até onde estamos dispostos a ir para evitar o confronto com a realidade? Na leitura do artista, a evasão não se limita às substâncias. Pode assumir a forma de validação, prazer, promessas, crenças inquestionadas ou de uma narrativa pessoal demasiado confortável para ser posta à prova.

O ponto decisivo é que esta reflexão não parte de uma suposta superioridade moral. RONIN não se coloca fora do problema nem assume o papel de quem despertou enquanto os outros continuam adormecidos. Inclui-se, pelo contrário, nas contradições que observa: questionar as formas de evasão não significa estar imune a elas. Na distinção que o próprio estabelece, não vender drogas também não equivale necessariamente a não consumir nenhuma. A força da metáfora está precisamente nessa tensão entre aquilo que recusamos oferecer aos outros e aquilo a que nós próprios podemos continuar vulneráveis. É assim que RONIN enquadra Não Vendo Drogas: não como uma lição moral dirigida à sociedade, mas como uma investigação em que o próprio autor também está implicado.

Essa opção ajuda a compreender o lugar da escrita no seu trabalho. O rapper mantém o cuidado com a escolha das palavras, a construção das rimas e a densidade das imagens, mas insiste que a complexidade nunca foi um fim em si mesmo. A técnica serve a expressão; não deve encobri-la. Uma letra pode impressionar pela estrutura e, ainda assim, falhar no encontro emocional com quem a escuta. Para RONIN, o desafio está em fazer com que a precisão verbal transporte uma experiência reconhecível.

«O que estamos dispostos a consumir, acreditar ou ignorar para não termos de enfrentar a realidade?»

— RONIN

Do palco ao projecto

A origem do EP contraria a ideia de um manifesto planeado ao pormenor desde o primeiro dia. RONIN situa o impulso inicial depois do seu primeiro concerto, realizado em 2025. A reacção de quem cantou as suas músicas com ele desencadeou uma fase de inspiração particularmente intensa e o desejo de retribuir essa ligação através de novas canções.

O conceito apareceu enquanto o trabalho já estava em movimento. A faixa que viria a dar nome ao projecto foi a terceira a ser escrita; só então RONIN reconheceu um fio condutor que, retrospectivamente, também ligava as duas composições anteriores. Em vez de forçar as músicas a caber numa ideia prévia, identificou uma direcção e passou a segui-la de forma consciente.

A selecção final foi igualmente determinada pela coerência conceptual. Segundo o artista, foram escritas cerca de onze ou doze faixas. Sete permaneceram, não por falta de material, mas porque as restantes não correspondiam à identidade que o EP tinha adquirido. RONIN também não pretendia transformar esta etapa num álbum: a concisão faz parte da decisão artística.

A estreia estava inicialmente pensada para o final de 2025. O calendário não se concretizou, e o lançamento foi adiado para 2026. Essa distância entre intenção e publicação não altera o essencial da narrativa: o projecto nasceu de um momento de proximidade com o público e ganhou forma através de um processo de escrita, descoberta e escolha.

RONIN durante uma entrevista

Olhar para fora, sem abandonar a própria voz

RONIN identifica uma mudança importante em relação a parte da sua produção anterior. A atenção à palavra e a ambição de melhorar a escrita permanecem; o campo de observação, porém, alarga-se. Segundo explica, na escrita de Não Vendo Drogas procurou abordar menos assuntos autocentrados ou autobiográficos. Em lugar de partir sempre da sua experiência íntima, virou-se deliberadamente para comportamentos, tensões e contradições que reconhece à sua volta.

O ambiente social e os debates que circulam na internet entram nesse processo como matéria de reflexão, não como simples inventário de polémicas. A observação do modo como as pessoas vivem, discutem e defendem determinadas ideias ajudou a formar os temas do EP. O artista descreve esta obra como aquela em que mais olhou para o exterior. Isso não significa ausência de identidade pessoal: significa usar a própria voz para interrogar um espaço colectivo.

Há também uma consciência clara de evolução. RONIN considera que escreve hoje muito melhor do que quando começou a fazer música. As experiências vividas e o contacto com outros artistas mudaram a sua percepção do mundo e, consequentemente, a maneira de criar. A continuidade está menos numa fórmula fixa do que numa exigência persistente: tentar superar-se em cada nova faixa.

«Esse deve se o projeto onde eu mais olhei pra fora do que pra dentro.»

— RONIN
RONIN e Silindro Darkroom em estúdio

Silindro Darkroom: uma linguagem construída a dois

A produção integral de Não Vendo Drogas está a cargo de Silindro Darkroom. Não se trata de uma parceria inaugurada para este lançamento. Os dois trabalham juntos desde Bestiário, projecto também integralmente produzido por Silindro, e essa continuidade parece ser determinante para a confiança criativa que sustenta o novo EP.

RONIN descreve Silindro como alguém que acredita no seu potencial, acompanha o seu percurso e compreende as necessidades sonoras da sua escrita. O método não obedece a uma única sequência. Por vezes, o rapper envia referências para alcançar um resultado específico. Noutras ocasiões, mais frequentes segundo o próprio, são os instrumentais enviados pelo produtor que despertam imediatamente uma ideia ou um impulso de escrita.

O dado mais revelador desta dinâmica não é uma descrição antecipada do som das sete faixas, que o artista optou por não detalhar no questionário. É a existência de uma linguagem partilhada, desenvolvida ao longo de vários trabalhos. Pelas declarações de RONIN, essa relação de confiança terá orientado a construção do EP: um produtor que conhece a direcção artística do MC e um MC que continua aberto à surpresa dos instrumentais.

Quatro participações, diferentes aproximações

Phedilson, Isis Hembe, Rezo Luto e Young Double participam no EP. Para um artista que habitualmente não reúne tantos convidados nas suas músicas, a presença dos quatro já representa uma diferença face a trabalhos anteriores. A escolha, contudo, não resulta de uma estratégia indiferenciada de reunir nomes.

As colaborações nasceram de relações artísticas e necessidades concretas das composições. RONIN identifica afinidades naturais com Isis Hembe e Rezo Luto; em Young Double e Phedilson reconhece contributos que introduzem um contraste mais evidente. Na intenção descrita pelo artista, essas diferenças servem para ampliar as possibilidades de cada composição. O resultado musical dessa combinação ficará para avaliar depois do lançamento.

O princípio de trabalho é igualmente significativo. RONIN prefere dar liberdade aos convidados para interpretarem uma proposta à sua maneira. Intervém apenas quando sente que a leitura da ideia se afasta demasiado do sentido da canção. É a forma como o artista descreve a dinâmica de colaboração; a contribuição musical de cada convidado só poderá ser apreciada quando as faixas estiverem disponíveis.

Os detalhes das músicas em que estas colaborações acontecem, incluindo as histórias por detrás de cada convite, ficam deliberadamente reservados para a segunda parte deste especial, depois de o público poder ouvir o projecto.

«Eu gostaria que o ouvinte ficasse com dúvidas, que questionasse as coisas em que acredita depois de ouvir as 7 faixas.»

— RONIN

A dúvida como ponto de chegada

Existe uma diferença entre fazer música para confirmar aquilo que o ouvinte já pensa e criar uma obra que o obriga a reconsiderar certezas. RONIN aproxima Não Vendo Drogas da segunda possibilidade. A expectativa que apresenta não é a de convencer todos de uma tese, mas a de despertar curiosidade e deixar perguntas a trabalhar depois da última faixa.

A própria recusa de uma fórmula rígida atravessa o processo de composição: algumas músicas nasceram de um título, outras de uma palavra, de uma ideia ou de um instrumental. O fio comum não reside num procedimento técnico repetido, mas na intenção de transformar observações em canções capazes de provocar reflexão.

Antes da primeira escuta, o que se pode afirmar é isto: RONIN não pretende oferecer conforto nem soluções prontas para as contradições que escolheu abordar. Espera, antes, que o público as reconheça e as questione. E, ao deslocar a escrita para além da autobiografia, RONIN procura demonstrar que o seu universo artístico continua em expansão. Essa é, por agora, a proposta que apresenta para Não Vendo Drogas: trocar respostas fáceis pela disposição de fazer perguntas melhores. Saber como essa intenção se concretiza nas músicas será assunto para depois da primeira escuta.

Ficha do projecto · Informação anunciada

Artista
RONIN
Projecto
Não Vendo Drogas (NVD)
Formato
EP · 7 faixas
Produção
Silindro Darkroom (integral)
Participações
Phedilson, Isis Hembe, Rezo Luto e Young Double
Lançamento previsto
30 de Outubro de 2026